Para quem transita em ambientes de grande expectativa social, o “não” pode parecer um risco. Existe uma crença silenciosa de que a nossa valia está atrelada à nossa utilidade e à capacidade de atender às demandas do entorno — seja na gestão de uma empresa, nas exigências familiares ou no círculo social. No entanto, essa busca incessante por agradar esconde uma estrutura subjetiva complexa: a tentativa de evitar o encontro com a falta no outro.
O Medo de Decepcionar e a Fantasia da Completude
Muitas vezes, a dificuldade em dizer “não” nasce do desejo inconsciente de ser “tudo” para alguém. Se eu digo sim a todas as demandas, sustento a fantasia de que sou infalível e de que posso preencher qualquer lacuna.
Na psicanálise, entendemos que o sujeito que não consegue negar nada ao outro está, na verdade, tentando se oferecer como resposta à falta no Outro. Ele teme que, ao frustrar a expectativa alheia, ele revele sua própria castração — ou seja, o fato de que ele não é perfeito e não pode tudo.
O Custo do “Sim” Indiscriminado
Quando o “sim” é automático, ele perde o valor. O preço de ser excessivamente disponível é o apagamento do próprio desejo.
A exaustão do “Ideal do Eu”: Você vive para corresponder a uma imagem idealizada, e não à sua verdade.
O ressentimento silencioso: Todo ‘sim’ forçado produz um acúmulo de angústia que encontra saídas sintomáticas, muitas vezes nomeadas hoje como exaustão, colapso ou ansiedade.
A invasão da hiância: Sem o “não”, não existe limite. E sem limite, não existe espaço para o seu próprio respiro criativo.
O “Não” como um Ato de Separação
Dizer ‘não’ é um corte necessário. Não como afirmação de autonomia, mas como efeito de uma mudança na posição do sujeito frente à demanda do Outro. É o que permite que a hiância apareça — não como um vazio negativo, mas como um intervalo onde você pode, finalmente, se perguntar: “O que eu quero, para além do que esperam de mim?”.
A análise não ensina a negar o outro, mas pode produzir o deslocamento da posição em que o sujeito se oferece como resposta à carência alheia. É o processo de reconhecer que a frustração é estrutural ao laço social e que é a partir dela que o sujeito pode se responsabilizar por seu desejo.
O que orienta suas escolhas: o seu desejo ou a expectativa do Outro?
Por Clarice.