O nome de uma clínica é, antes de tudo, uma aposta ética.
Ao nomearmos este espaço como Hiância, nos afastamos das promessas contemporâneas de “plenitude” e “gestão de si” para abraçarmos o que há de mais fundamental na descoberta freudiana: a existência do inconsciente.
A palavra, resgatada por Jacques Lacan em seu Seminário 11, define o modo como o inconsciente se apresenta. Ele não é um reservatório de conteúdos recalcados à espera de uma tradução, mas sim um vacilo. O inconsciente é temporal; ele se manifesta como uma fenda, uma descontinuidade na fala — uma hiância.
Na clínica, a hiância é o intervalo entre o que o sujeito diz e o que ele, sem saber, enuncia. É no tropeço da língua, no esquecimento súbito ou no sonho que a verdade do sujeito “pisca” e se retrai.
Escolher o nome Hiância significa sustentar um lugar onde o silêncio não é ausência, mas sim o tempo oportuno de abertura. Respeitamos o tempo do sujeito, compreendendo que uma intervenção analítica não pode ser imposta “à força”. É necessário que o analista, em sua posição de escuta, aguarde o instante em que a hiância se abre, permitindo que, a partir dessa abertura, uma pontuação necessária possa ser colocada ali onde a demanda se transforma em desejo.
Aqui, a hiância é o convite para habitar o intervalo entre o que não existe e aquilo que, ao ser dito, pode surgir.
Por Clarice.