Se estivéssemos completos, não desejaríamos nada.

​Vivemos em uma era que encara a “falta” como uma patologia a ser erradicada. Somos constantemente bombardeados por imperativos de consumo, performance e felicidade total, como se o bem-estar fosse o preenchimento absoluto de todas as nossas lacunas. No entanto, a psicanálise nos ensina o inverso: a completude é a estagnação do sujeito.

​Se fôssemos seres completos, saturados em nossas necessidades e sem fendas em nossa constituição, o desejo seria impossível. O desejo não nasce da posse, mas da ausência. É precisamente porque algo nos falta — porque existe uma hiância constitutiva entre nós e o objeto — que nos colocamos em movimento.

​A Dignidade da Falta
​Para o público que dispõe de recursos para “solucionar” quase todas as demandas materiais, o encontro com o vazio interno costuma ser experienciado como um fracasso. Contudo, é fundamental distinguir o vazio depressivo da falta produtiva.

A completude imaginária: É a busca por um ideal de perfeição que, quando alcançado, revela-se sufocante. Onde tudo está cheio, não há lugar para o novo.
A hiância como motor: Mesmo quando as necessidades são atendidas, o desejo persiste. É o que nos faz buscar, criar e amar.

​Reconhecer que somos incompletos não é um sinal de fraqueza, é minimizar a alienação ao desejo do Outro. Ao aceitarmos que não há objeto no mundo capaz de nos completar inteiramente, deixamos de ser escravos da busca por preenchimentos paliativos e passamos a nos responsabilizar pelo nosso próprio desejo.
​Nesta clínica, não buscamos tamponar a falta. Buscamos dar a ela um destino criativo, transformando a angústia da hiância na potência do vir a ser.

Por Clarice.

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